Cesar Garcia Lima

Rosana Piccolo

Bibelôs

Porcelana e pressa, balcão dos anjos. Finíssimos pontos de interrogação contornam a tez da prole do céu, alheia ao tecido dos faróis sedosos. Músicos alguns. Bailarinos outros, braços serpentes brancas boquiabertas no ar parado da noite. Exibem adagas e peixes de prata. Ou ânforas, camomilas tristes.

Há os que venham dos vitrais. Dos evangelhos. Das grifes. Dos rótulos. Do mármore. Do autódromo. Das marcenarias. Das grutas. Das sepulturas soturnas. E trazem o açoite. E trazem os cravos a lança o sudário a pedra removida. Há os que empunhem arcabuzes, exigindo preces e um vestido novo. Ou lâmpadas, flâmulas bruxuleantes, quase Natal, quase Sexta-Feira Santa.

Cerimônia do Chá

Em uma dessas vitrines, dubiamente iluminadas pela hora mágica, pode ser visto o tatame. O braseiro rivaliza o pôr-do-sol. Fumega o incenso, fumega eterno. A caligrafia da chuva já foi removida. Rente à parede, nasce o ikebana da nova estação.

Podem-se ver convidados, três ou quatro. E a gestualidade do anfitrião — lá fora evoluem os sacis, arrepiando o crânio das cerejeiras. O vaso, a cumbuca, utensílios de nome poético foram retirados do recinto, cuja entrada é tão pequena que os samurais nela se agacham, largando o sabre do lado de fora.

O chá lembra o vulcão adormecido: por um tremor derrama o perigo, e queima, e dói, não é? Há também a estampa dos quimonos, cuja flor é tão perfeita que natureza não soube imitar.

Prateleira de Destinos

Sandálias agrestes, artemisianas: saltam séculos precípites. Franciscanas: insubmissas. Quando paquistanesas, semelham o negro naipe de paus. Sandálias de praxe de princesas. Se forem dos Andes: como adereço, o condor. Sandálias para Marlene Dietrich. Diáfanas. Hollywoodianas. Decotadas. Inframundanas. Pagãs: luxúria das uvas no topo dos pés. Sapatos com salto em forma de vírgula. E em forma de agulha-fetiche. Dourados: Aufklärung lucífera. Fechos: dedos de leque de plumas trincado. Pisadas angélicas, gélidas, feéricas. Forem fatídicas: siga-me. Passos vermelhos lendários obrigando-te a. Então dança, dança, poeta.

Resumo de atividades:

Rosana Piccolo é paulistana, formada em Filosofia pela USP (Universidade de São Paulo). Jornalista pela Faculdade Cásper Líbero, atua na área de publicidade. Em 1999, publica Ruelas Profanas, seu primeiro livro de poemas em prosa, pela Nankin Editorial. Em 2003, lança Meio-Fio, pela Iluminuras, no mesmo gênero literário. Atualmente dedica-se à preparação da terceira coletânea, Sopro de vitrines, da qual esses textos farão parte.