Cesar Garcia Lima

Obras publicadas

Desnorte

Terceira antologia publicada junto ao Cálamo (ver Lição de asa e Vila Lira Rica), em 1997, também como parte da coleção Janela do Caos (Nankin Editorial). O livro reúne textos inspirados na obra de João Guimarães Rosa. Cesar Garcia Lima participa com os poemas “Pernoite”, “Manada” e o texto em prosa “A estrada do Boi Maluco (um arremedo)”, que utiliza ditados populares para fazer um pastiche das estratégias de criação do autor mineiro (leia abaixo).

Textos

A ESTRADA DO BOI MALUCO (Um arremedo)

Boi Maluco não valia o que o gato enterra, mas matuto é o bicho mais parecido com gente que Deus pôs no mundo. Pra iluminar seu caminho, só um cotoco de vela. Pra chorar seu desterro, nenhum ninguém.

O dia era de Todos os santos, só que o diabo, feito ninhada ruim, não carecia de carroça pra trazer desastre. Boi Maluco tava triste de deixar seu sertão, o arame farpado a cercar um vale-nada.

Sem conhecer o final, a estrada era mais longa e a companhia, só uma promessa. Até por isso, Boi Maluco se aprumou quando viu os dois arrastando sandália na poeira. Ao ver a boca de Rosa, logo embeiçou por aquela mordida encarnada. O pai da moça se mostrou amuado, homem astroso, barba até o olho, que não perdoava nem a quentura do sol. Botou em Boi Maluco uns olhos apertados, de quem calcula o tombo antes da virada do jirau. De rogado se fingiu e abanou o chapéu, soltou um "tarde" pesado, de tempestade.