Menino de sentimento, ele se arrupiou, o imbigo encolheu como se a terra já quisesse suas tripas. Rosa, sozinha entre aqueles dois insultos, olhou para a frente e viu o mundo zarolho de Boi Maluco. Olhou para trás e farejou o ressentimento do pai Bumbá. Preferiu arriscar e se abriu num riso sem consentimento.
Boi Maluco sempre soube que a gente nasce nu e não se enterra de chapéu. E pegou o medo pelo cabresto. Quis saber de onde vinham, pra onde iam, se queriam buscar o que nem ele mesmo sabia que tava procurando. Carão não mata, mas maltrata, e o Bumbá, tinhoso, gostava cada vez menos daquela conversa mole.
Moço adulador se necessitado, Boi Maluco não queria fazer cortesia com chapéu alheio, mas já punha fé na roça verdinha, com Rosa em casa abanando o fogão de lenha. Por um instantinho quis pitar o cachimbo, perdido nas suas lonjuras.
Rosa, que a única coisa a querer do pai era distância, secava o suor com as costas das mãos, como se assim ficasse pronta, o futuro pegando galope.
Velho escovado quando de precisão, Boi Maluco chegou mais perto, arregalou simpatia e tomou intimidades com o Bumbá. Arre rei! - o homem abriu os braços de levantar poeira. Bate-boca sem nuvem por testemunha. A menina se doendo antes, sabendo que quando um não quer dois não brigam. Os dois tanto queriam que, quando a faca de Bumbá se alteou, Boi Maluco já estava em cima dele lhe arrancando os olhos. As tripas do Boi Maluco, pesadas, molharam a poeira, o sangue do Bumbá esguichou no branquinho do vestido puído de Rosa. Como flor só precisa de água, ela correu no que acreditava ser o rumo do rio.